Nascido para os Problemas

Imagem: Sheep in Landscape de Anton Mauve

Tenho uma notícia para você que contraria o que quer ouvir e não está adequada à “teologia moderna”. Você nasceu para ter problemas. Sim, você não leu errado. Você nasceu para enfrentar todos os dias algo que te desafie e te dê trabalho.

Posso te imaginar soltando uma massa de ar pesada de seus pulmões. Posso supor que esteja lembrando agora de algum problema que está enfrentando e por dentro se contorcendo de ansiedades e uma pitada de desespero. A grande verdade é que nossa compreensão de problemas está vinculada à mácula do pecado. Tanto a compreensão é maculada quanto os problemas em si mesmos estão maculados.

O problema não é ter problemas. O problema é que estamos sob efeitos da queda e os problemas que nos traziam sentido agora nos castigam. Os problemas já existiam antes da queda e fomos feitos para eles e sermos moldados neles.

Basta olharmos para o Pacto de Obras que Deus fez com Adão no Éden, e veremos um conjunto de ordens e problemas a serem resolvidos, como guardar e cultivar o jardim (Gn 2.15). Era um homem para cultivar um grande jardim ao ponto de expandi-lo enquanto guarda a aplicação da vontade de Deus naquele jardim.

Veja que em Adão há um acumulado dos ofícios de rei, profeta e sacerdote. Um só homem, sem nenhum semelhante até aquele momento que o auxiliasse. Isso é um grande problema! Porém, não eram ruins. Esses problemas foram dados a Adão como meio para alcançar a Árvore da Vida caso conseguisse cumprir. A vida eterna em comunhão com Deus era uma bênção que não receberia se não fosse por meio do Pacto que trouxe os problemas, pois o que lhe era natural e devido eram as obrigações de criatura perante o Criador.

Os problemas então davam sentido e oportunizavam bênçãos. Adão nasceu para esse problema e outros que viriam mais à frente, tanto quanto Eva nasceu para o momento problemático em que enfrentaria a serpente mentirosa. No meio de um jardim perfeito onde tudo o que foi criado era muito bom (Gn 1.31), surge uma serpente. Quem colocou-a ali? Se preferir outro linguajar que não ofenda sua fraca visão da soberania de Deus: Quem permitiu que ela entrasse ali? Com tudo perfeito, Deus inseriu um problema, que testaria Eva para a bênção.

A vida é uma história, ou você não tinha pensado dessa forma? Deus cria essas narrativas contendo problemas que dão sentido aos homens, nos testam e glorificam o nome Dele. Além disso, são histórias dentro da Grande História da Redenção. Momentos com seus problemas definidos por Deus que se influenciam e deságuam em histórias de outras pessoas, compondo uma linha só, a história do homem, que chega até a Nova Jerusalém.

Gosto muito dessa forma como Nathan D. Wilson vê a vida como uma história narrada por Deus em seu livro Morrer de Tanto Viver. Ela não é meramente ilustrativa, porém, é o que temos de vocabulário humano mais próximo à precisão da soberania de Deus. Como um autor que escolhe os detalhes e momentos de clímax, Deus desenhou os nossos problemas.

Mas, até aquele momento, nem Adão nem Eva estavam sob o efeito da queda. O trabalho no Jardim do Éden estava atrelado a um grande propósito; após a queda, se tornou puro suor e dor (Gn 3.17-19) e descrito por Salomão como sem sentido algum (Ec 2.11). A gravidez e a multiplicação, que antes eram problemas que davam sentido ao homem (Gn 1.28), passaram a ser dolorosas (Gn 3.16) e quantos nem mesmo nascem hoje.

O problema ficou sem sentido e sem graça. Pode-se ler graça com sua primeira letra maiúscula ou minúscula. Após a queda, continuamos nascendo para os problemas, até mesmo esses que são fundamentais à vida de todos como o trabalho e a multiplicação. Mas olhamos para eles e dizemos soltando um ar quente dos nossos pulmões “(…) Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.” (Ec 1.2).

Se houvesse algum pecado nesses problemas fundamentais ou se fosse para interrompermos suas realizações, Jesus Cristo não teria trabalhado. Então, o trabalho ainda é um problema que deve estar presente na vida do homem e o desafio agora é lidar com seu esvaziamento de propósito. É um tanto quanto comum cairmos na futilidade agora, pós-queda, natural desses problemas e queremos abrir mão deles em vez de calibrarmos seu sentido.

Após a queda, Deus não removeu os problemas e desafios vindos da vida no Éden, eles continuariam na vida humana fora do Éden. No texto bíblico, a todo momento Deus fala do quanto será desafiador manter o que é devido (Gn 3.16-19). Ou seja, o que Deus fez foi acrescentar um novo problema: enfrentar o esvaziamento de propósito e conforto.

A grande proposta é se esforçar na luta diária por manter a referência bíblica nos nossos desafios. Ou o que chamamos em Aconselhamento Bíblico de teoreferenciar os problemas fundamentais da vida para trazer resignificação a eles. Por isso, homens e mulheres pós-queda, vocês nasceram para problemas em dobro e não podem abandonar os aconselhamentos bíblicos, comunhão com irmãos em uma igreja local e rotina diária de devocional.

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