O Leão Rugindo na Sala

Imagem: Children of the Sea de Jozef Israëls

A soberania de Deus é de uma beleza infinita que ocuparia os nossos estudos por toda a eternidade. Mas é, na mesma proporção, forte em nossos ombros quando contraria as nossas expectativas. E como é fácil criar essas expectativas apesar da nossa consciência da soberania de Deus.

A soberania está aqui, sabemos que está em cada segundo, e, apesar disso, estamos simultaneamente criando expectativas à parte dela. É como se a soberania de Deus fosse um conhecimento meramente intelectual, mas que, de tempos em tempos, nos tocasse no braço, dando um susto.

Surge nesses momentos a mesma pergunta que nos fazemos no caso de uma esposa se assustando com o marido dentro de casa. Como não sabíamos que Deus estava ali? Nem passa pela nossa cabeça que é um tanto quanto óbvio que Ele esteja ali? Infinito, constante, regendo todos os cômodos, e nos assusta quando esbarra em nós?

Das suas posições, uma é verdade. Ou o problema está no susto, ou está no nosso credo da soberania. Ou esse susto é mentiroso e fantasioso, porque a convicção da presença é real, ou nossa crença na presença de Deus é fraca.

Alguns podem argumentar que se distraíram com o dia a dia e suas atividades e se esqueceram da presença de Deus constante. Porém, essa argumentação é exatamente o que configura uma convicção fraca da presença de Deus, pois a distração é com elementos muito menores. Ninguém se distrai olhando pela janela com o barulho das motos passando do outro lado da rua quando há um leão rugindo em nossa sala de estar.

As preocupações com questões finitas e nossos planos terrenos nos absorvem de maneira tal que a Vontade de Deus é completamente ignorada. O motivo está no nosso prazer em estar na terra e não nos céus. Amamos tanto o que planejamos, namoramos nossas ideias, nos deleitamos em nossas questões terrenas.

No mínimo, não temos admiração pela soberania na mesma proporção. O prazer se esvaziou com o comodismo espiritual e a presença de Deus passou a ser passível de ignorarmos. A soberania de Deus pode ter passado a ser algo da rotina, não mais objeto de meditação. Não só despreocupados com ela, mas também desinteressados nela.

Amamos e abandonamos, planejamos e pivotamos projetos, mas nada é deixado no trono soberano. As expectativas do nosso coração e os decretos vindos do trono não se alinham e a frustração é certa. Se vamos ao trono é para, em uma mão única, pedirmos o que já amamos e não para amarmos o que Ele deseja.

O grande segredo é a vida diante de Deus (Coram Deo), com os dias orientados à voz divina e não à voz da própria alma, a pobreza de espírito desapegada às pressões sociais e a identidade peregrina que nada retém dessa terra. Nada surge ou avança em nós sem ter sinais de Deus que isso corresponde à sua vontade.

Isso não nos escraviza ou robotiza, não remove de nós a nossa agência. Na verdade, isso nos alimenta com prazeres e corresponde ao que agenciamos. É ouvir os rugidos com sorriso no rosto e olhos admirados. É sentir satisfação no timbre da voz de Deus e fazer disso nosso sentido de vida.

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