Cristo Exaltado e seu Alívio Próximo

Imagem: The Sheepfold, Moonlight de Jean-François Millet

Hebreus 2.14-18

Introdução

A carta aos Hebreus e seu autor desconhecido e tão debatido tem uma mensagem especial para uma época marcada por apostasias. Por isso, é possível notar ao longo de todo o seu desenvolvimento uma preocupação em estimular a firmeza na fé quando se depara com a descrença e a desobediência. Para compreendermos o texto base de Hebreus 2.14-18, considero mais importante uma compreensão do que tem sido dito na carta até ele do que fazer uma introdução sobre a carta de uma maneira aberta. Assim, daremos insumos importantes para compreendermos o texto base.

A Glória de Cristo

A carta inicia em seu primeiro capítulo (1.1-4) apresentando Jesus Cristo, o Filho de Deus, como o ápice da revelação de Deus. Toda a glória que os títulos e vocabulários podem descrever é, nesse momento, apresentada pra reforçar a grandiosidade da revelação. Como revelação, Cristo é chamado de profeta, que fez, nos últimos dias, o que os profetas anteriormente haviam feito de ser a boca de Deus (1.1). Também é chamado pela carta de herdeiro de todas as coisas e meio pelo qual todas essas coisas foram feitas (1.2). O Filho de Deus é chamado de resplendor da glória de Deus, não um mero reflexo da luz de Deus, mas alguém que expressa exatamente o ser de Deus e sua luz (1.3). Além disso, Jesus está assentado à direita da Majestade, o que o torna, além de profeta e herdeiro, o rei. Por fim, Jesus é citado como superior aos anjos, o que vai ser defendido até o final deste capítulo (1.4-14).

Acima dos Anjos

A superioridade de Cristo em relação aos anjos é apresentada pelo autor em cinco argumentos, e três desses precisam ser destacados nessa introdução. No primeiro argumento (Hb 1.5-6), com citações do Salmo 2 de Davi (Sl 2.7) e também do pacto feito com Davi sobre o seu descendente e rei eterno (2Sm 7.14), o autor mostra que somente Jesus Cristo é chamado de Filho, mas isso nunca foi dado aos anjos. O segundo argumento (Hb 1.7), citando o Salmo 104.4 que era tão cantado pelos judeus, os anjos são usados por Deus da mesma forma que os ventos e ministros para levarem mensagens, ou seja, são serviçais do Altíssimo. Mas o Filho não serve e, sim, é servido em seu trono à direita de Deus, sendo esse o terceiro argumento (Hb 1.13-14).

Advertência sobre a Seriedade

Após terminar essa bela apresentação do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, o autor da carta traz logo na sequência, no capítulo 2, a advertência sobre esquecer o tamanho desse Cristo e a magnitude de sua obra salvífica. O autor não se mantém em uma torre de marfim nessa advertência, mas se inclui utilizando sempre o pronome “nós”.

Hebreus 2.3 “como escaparemos nós, se não levarmos a sério tão grande salvação? Esta, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, depois nos foi confirmada pelos que a ouviram.”

É um convite à seriedade quanto a tudo o que fez por nós. Mas não a uma seriedade que se tem com notícias ruins, mas a seriedade de um estado contemplativo, onde nada nos distrai ou nos faz querer sair dali. O que comprova isso é que o versículo anterior apresenta a dureza do que havia antes, “(…) a palavra falada por meio dos anjos se tornou firme(…)” (Hb 2.2), para então mostrar o tamanho da salvação com a expressão “tão grande salvação” (Hb 2.3) como em um alívio ou escape que deveria ser contemplado com total seriedade.

Até nesse ponto da carta, muitos podem se perguntar a necessidade do autor anteriormente ter comparado Cristo aos anjos para mostrar sua superioridade, pois no início da carta já havia colocado o Filho de Deus até mesmo como herdeiro sobre todas as coisas e a expressão exata do Ser de Deus. A resposta vem no momento em que se compara a palavra falada por esses anjos que são inferiores. Apesar do Antigo Testamento não descrever tal momento, Paulo, em sua carta aos Gálatas (Gl 3.19) nos informa que a dura Lei foi entregue pelos anjos a Moisés. Então, Cristo faz-se superior até no que trouxe a nós.

Tudo isso condiz com as palavras do autor aos Hebreus, inclusive com a dureza relatada, já que não conseguimos cumpri-la. O valor está em poder dizer que temos um salvador cheio da beleza e glória relatadas no capítulo 1 e que, além disso, nos ajuda a escapar de toda essa dureza das nossas incapacidades. Perceba a importância da pessoalidade e proximidade de Jesus nessa conclusão. Jesus poderia ser o Rei do Universo, mas ser frio e distante de nós. Poderia Ele ser o rico herdeiro de tudo o que existe, mas não se importar com a nossa miséria. Sem a pessoalidade e proximidade, teríamos um profeta que só traria o aviso da condenação imediata, mas nenhum alívio ou esperança. Poderia ser superior aos anjos mas não vir trazer algo que demonstrasse a superioridade em alívio. Poderia até mesmo demonstrar superioridade em termos de dureza! Afinal, não merecemos nada diferente de impessoalidade e justa alienação quanto a nós.

Adoção

Toda essa proximidade da nossa causa e pessoalidade em lidar conosco continuou sendo discutida pelo autor. Os mesmos podem se perguntar o motivo do autor ter argumentado a superioridade ao dizer que Jesus é o Filho de Deus, mas os anjos não são. E a resposta vem no momento em que ele nos enche de alegria com a notícia da nossa adoção em Hebreus 2.11 “Jesus não se envergonha de chamá-los de irmãos”. Os anjos não são chamados de filhos, somente Jesus é Filho de Deus. Porém, nós recebemos a graciosa bênção de sermos chamados de irmãos pelo próprio Filho, fazendo de nós, de forma adotiva, filhos de Deus.

O prazer que Jesus tem de nos abençoar com esse vínculo profundo é descrito no versículo seguinte (Hb 2.12), onde ele se pronuncia no meio da congregação os nossos nomes, que é uma citação do Salmo 22. Assim que é composta a igreja universal e invisível de Cristo, com ele pronunciando e reconhecendo os seus. É de emocionar que ele saiba o nosso nome e que ainda se preste a pronunciá-lo no meio da congregação. O herdeiro, sustentador e governador no trono à destra de Deus sabe os nossos nomes. Aquele que é o resplendor da glória de Deus e expressão exata do seu ser sabe de nós. Quem tem o nome acima de todos os nomes, acima dos anjos, e que todos deveriam saber o seu nome e pronunciá-lo em louvor por toda a eternidade, passeia no meio dos eleitos pronunciando o nome de cada um.

Por isso, gostaria de continuar a pergunta do autor da carta, “como escaparemos nós, se não levarmos a sério tão grande salvação?” (Hb 2.3), e perguntar: Como podemos não levar a sério tão grande salvação? A preocupação não é apenas como escaparíamos sem a salvação trazida por ele. A preocupação no começo de tudo é por que não levaríamos a sério toda essa riqueza em formato de proximidade, misericórdia e alívio. Como podemos não nos apegarmos com firmeza a tão grande privilégio?

Não é um remédio de sabor terrível que se faz necessário em um momento de doença. É um prato de refeição cheio de beleza, cores, cheiros e sabores que alivia a nossa fome e necessidade. É tanto belo quanto aliviante, tão necessário quanto próximo. É magnífico por qualquer um dos ângulos que analisarmos. Como não nos apegarmos com firmeza no Cristo e em sua obra?

O Cristo exaltado nos traz alívio com toda sua proximidade e de diversas maneiras. O autor coloca Cristo como exaltado no capítulo 1 e, no capítulo 2, vai aproximando-nos de toda essa glória como um remédio para a apostasia. Perceba o uso de palavras como “filhos”, “irmãos”, “Autor da salvação” e o tempo inteiro colocando os efeitos da glória derramada sobre nós.

Comunhão com seus Irmãos

Hebreus 2.14 “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, também Jesus, igualmente, participou dessas coisas, (…)”

A doçura da palavra “filhos” sendo repetida ao longo de toda a carta. Cada repetição é um movimento da massagem cardíaca, estimulando o nosso coração à vida e àqueles destinatários que sinalizavam apostasia. É a sensação de que toda a glória da pessoa de Cristo, descrita nesses primeiros capítulos, estivesse vindo em nossa direção, o que a princípio assusta pela nossa miséria, mas, de repente, percebemos que tudo isso vem de forma graciosa, afetuosa. Concluímos que está a nosso favor porque toda essa beleza, quando chega bem perto de nós, nos entrega o título de filhos. Como não ser constrangido e transformado por tudo isso?

O Auge da Proximidade

Além de um relacionamento em forma de títulos, o Filho comunga conosco em estado de mortalidade e natureza humana. Toda a proximidade chega ao seu auge! Se os irmãos possuem carne e sangue, o Filho participa igualmente dessas coisas ao se encarnar sem a mácula do pecado. A natureza divina da Pessoa do Filho se une a uma natureza humana e se encarna como verdadeiramente Deus e verdadeiramente Homem. Esse é o Jesus Cristo!

A própria carta de Hebreus (Hb 10.5) nos apresenta, citando o Salmo 40.6, que o Pai preparou o corpo para o Filho. Como uma obra Trinitária, entendemos que o Espírito foi quem realizou a real formação planejada pelo Pai. No anúncio do anjo a Maria, é dito que o Espírito de Deus desceria sobre ela e a envolveria para gerar Jesus (Lc 1.35). E o Filho, voluntariamente, aceita a união das naturezas para fazer-se igual aos seus irmãos e salvá-los da morte.

Alívio para Toda Eternidade

Hebreus 2.14 “(…) para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo,”

Se o ato em si de partilhar de nosso estado e natureza é completamente gracioso, o que dizer quando soma-se o fato de que tudo isso é para nos favorecer em algo mais? Tudo para nos libertar do poder da morte. A comunhão de natureza conosco em si mesma é de uma pessoalidade que nos daria insumos para meditarmos pelo resto de nossas vidas. Mas ele vem para nos dar toda uma eternidade para experimentarmos dessa íntima e aliviadora comunhão, nos levando junto dele na vitória contra a morte.

Para destruir o poder da morte, é necessário destruir aquele que ministrava o que trouxe a morte sobre nós, o diabo. Satanás, ao nos influenciar, nos trouxe a ira de Deus em forma de imediata morte espiritual e iminente morte física. Seu desejo era destruir a glória de Deus. Sendo incapaz de enfrentar Deus como igual, sua tática ardilosa era atacar pelas trincheiras, fazendo a criação se rebelar contra seu Criador. Assim, toda a glória que era refletida na criação é manchada pela mesma cosmovisão de Satanás e a morte entra na humanidade como justiça divina pela rebelião.

João Calvino afirma que, apesar de ainda não ter sido destruído por completo e ainda que faça tudo pela nossa ruína, ele não pode exercer qualquer poder sobre nós. Tudo o que ele tinha foi superado por Jesus, então, por mais que ele ainda não tenha sido lançado no inferno, está em uma situação precária e não precisa mais ser temido.

Um Presente sem Pavor

Hebreus 2.15 “e livrasse todos os que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida.”

É impossível negar o pavor que a morte causa aos homens. Salomão, no livro de Eclesiastes, mostra sob diversos ângulos que a morte limita todos os planos e prazeres do homem. Salomão diz que sábio ou tolo, a morte vem e ambos caem no esquecimento (Ec 2.16), não tendo vantagem alguma em ser sábio. A morte tira o prazer do trabalho e da vida porque tudo o que é conquistado é deixado para gerações que não conheceremos de fato (Ec 2.18). Ele também afirma que o homem pode até viver diferente dos animais, mas a morte é a mesma (Ec 3.19).

São várias reflexões como essas chegando ao ápice que mais felizes são aqueles que nem mesmo nascem (Ec 4.3). A vida se esvaziou sem Deus e a morte é o poderoso cetro de Deus fincado no homem que abraçou a ideologia vaidosa e independente de satanás. Os ímpios se entendem como capazes de vislumbrar uma vida como seu próprio deus. Doce ilusão entender que pode ter uma identidade fora do Cristo. Além disso, o verdadeiro Deus limita seu tempo de existência, tornando tudo uma ilusão ainda maior. Conclui-se, com palavras de Salomão, que a vida é “(…) Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.” (Ec 1.2).

Essa punição mostra tamanho a oposição criada por Satanás entre nós e Deus. Uma vida em um terror que esvazia o sentido. O que Cristo fez por nós é restaurar todo o sentido e sabor da vida, nos reconciliando com Deus. A comunhão com Cristo nos retira o medo escravizante da morte. Nós, os filhos por adoção, não temos mais medo da morte, porque o nosso irmão e Senhor, Jesus Cristo, nos afastou da ira divina e tomou a estratégia maligna das mãos de Satanás.

A morte virá, mas não mudará o nosso futuro que está sob o domínio de Jesus no trono à destra de Deus. A morte não tem mais influência alguma em nós, nem mesmo de cancelar nossas vontades, porque todas elas estão para além desta vida. Por isso, a morte não nos arruína em nada, mas, na verdade, ela nos aproxima do que tanto queremos, que é estar com o nosso Jesus por toda a eternidade. A morte não remove de nós o brilho da vida em comunhão com Cristo, ela é vencida como fruto da comunhão com Ele e nos levará diretamente para seus braços. De uma grande muralha limitante, a morte passou a ser apenas uma pequena pedra às margens do nosso caminho até a presença do nosso Senhor.

Nem os Anjos e Apesar dos Homens

Hebreus 2.16 “Pois ele, evidentemente, não socorre anjos, mas socorre a descendência de Abraão.”

Os filhos mencionados até aqui agora passam a ser chamados de descendentes de Abraão. Obviamente, é considerada a descendência espiritual de Abraão, considerando todos os eleitos de todos os tempos, e não a genealógica. Jesus veio ao socorro dos filhos adotivos e descendentes de Abraão, participando de igual forma da carne e do sangue humano.

Essa foi uma incomparável demonstração de amor. Vir ao nosso socorro, reconciliar nossa comunhão com Deus através de um relacionamento profundo de senhorio, adoção e vitória sobre nossas maldições. Nem mesmo os anjos receberam tal demonstração!

Porém, só recebemos tamanha demonstração de amor porque tamanha é a nossa miséria. Sendo assim, não há motivos para nos vangloriarmos, mas há, sim, motivos para contemplarmos seriamente em gratidão. Até para os anjos foi criada uma bela motivação para contemplarem lá do alto. Quanto mais sentirmos a exaltação de Cristo no texto, mais sentiremos o valor da proximidade e mais compreenderemos o tamanho da nossa miséria.

Toda a Natureza Humana

Hebreus 2.17 “Por isso mesmo, era necessário que, em todas as coisas, ele se tornasse semelhante aos irmãos, (…)”

Jesus Cristo não assumiu apenas o corpo humano, mas foi necessário se tornar semelhante aos seus irmãos em toda a natureza. Corpo, alma, afetos, sentimentos e tudo o que é inerente ao homem em seu estado criado, o que automaticamente exclui o pecado. Cristo prova isso em momentos que até mesmo chora junto dos homens, como no caso de Lázaro, em que se entristece com a dor de todos, mesmo sabendo que o ressuscitaria (Jo 11.35).

Muitas vezes caímos na compreensão de que Cristo era apático, pouco reativo e até mesmo de poucas palavras. Talvez creiamos que as reações de Cristo só existissem nos momentos em que trazia os sermões e parábolas. Geralmente, esse raciocínio está ligado à soma do fato de ele não estar maculado pelo pecado com a compreensão de que a santidade está ligada a uma desconexão absoluta de tudo o que é terreno. Sendo assim, falhamos ao entender que a santidade é o caminho de se desconectar até mesmo da nossa humanidade e o que chamamos de humanidade é, na verdade, pecado.

Até Onde é Ser Humano

Geramos uma concorrência entre pecado, humanidade e santidade ao ponto de desfazermos os limites. Não sabemos até onde é pecado e o que é pura humanidade. Essa confusão a respeito da humanidade de Cristo acontece porque olhamos para nós mesmos para tentar compreendê-lo. Mas nós nem mesmo nos entendemos. Nos perguntamos se o que estamos fazendo é pecaminoso ou se é puramente humano. Da mesma forma, não conseguimos compreender que a humanidade não atrapalha a santidade. Isso gera uma grande ansiedade e falta de identidade e propósito na vida.

A grande verdade é que a queda humana não foi parcial como muitos defendem. A profundidade da queda (Romanos 3:10-12) maculou o homem por inteiro ao ponto de qualquer uma de suas características humanas poder estar banhada por alguma maldade vinda de seu coração. Por isso, usarmos a nós mesmos como referência para entendermos o que é humano e o que é pecado para então depois olharmos para Cristo é o caminho errado.

Cristo é o Norte Humano

Não conseguiremos compreender a humanidade de Cristo a partir do que conhecemos da nossa que é totalmente maculada. Por isso, muitos não conseguem sentir a pessoalidade e proximidade de Jesus e o transformam em algo distante. Porque muitos nem mesmo conseguem se entender para entendê-lo. O problema é que estamos fazendo o caminho inverso. O caminho adequado é olhar para Cristo como padrão de humanidade imaculada para então olhar para nós mesmos. É através de Cristo que seremos norteados e aliviados da angústia da nossa identidade perdida.

Cristo não precisava ser apático e sem emoções para não ter pecado. Emoções não fazem oposição ao pecado e a solução para remover o pecado não é remover nossos sentimentos. Para nós, ambos estão tão ligados que é impossível separá-los, mas em Cristo temos um norte para as emoções humanas, puras e santas. O Cristo Deus-homem nutre sentimentos verdadeiros e profundos por nós, mesmo estando no trono, de onde governa toda a história.

Segundo o teólogo conservador e defensor da ortodoxia calvinista, Benjamin B. Warfield, afirma que a emoção mais marcante em Cristo foi a misericórdia. Um ministério repleto de obras de beneficência, não puramente terrenas, mas de socorro aos seus irmãos. É, por isso, que a própria carta aos Hebreus diz que em tudo se fez semelhante aos seus irmãos, mas sem o pecado, para que pudesse ser misericordioso.

Para Ser Sumo Sacerdote

Hebreus 2.17 “(…) para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo.”

Toda essa misericórdia já conhecida pela natureza divina na Pessoa do Filho e a que foi desenvolvida em sua natureza humana tem como foco a propiciação pelos nossos pecados. O Filho que tem orgulho de pronunciar o nome de seus irmãos (Hb 2.12) no meio da congregação, que tem total ciência do nome dos seus eleitos, fez-se carne, sangue, emoções e sentimentos para interceder como sumo sacerdote pelos pecados de cada um dos que sabia o nome.

É um sumo sacerdote que nos entende em sua onisciente natureza divina e nos representa em sua natureza humana forjada nas aflições. Cada vivência, cada angústia, preparava o nosso Senhor, como diz Hebreus 2.10 “Porque convinha que Deus (…) aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles.”

Hebreus 2.18 “Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, quando foi tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados.”

O que mais poderíamos desejar se recebêssemos o que nem poderíamos ter imaginado? Todo esse Pacto de Redenção jamais seria imaginado pelos homens e, mesmo que fosse, jamais poderia ter sido proposto por homens caídos. Que motivo de séria contemplação! Que glória aliviadora!

Em uma obra Trinitária, o Filho faz-se carne, sangue e emoções, une sua natureza divina a natureza humana, sofre as limitações e aflições humanas para ser o perfeito sumo sacerdote de seus irmãos. O céu não é um lugar silencioso e o céu não é um lugar distante em termos de quilometragem e termos de pessoalidade. O céu está a uma intercessão de distância e quem nos ouve é o Deus-homem que nos compreende tanto pela sua onisciência quanto pela sua natureza humana. Esse sumo sacerdote não está em silêncio, mas interagindo com cada intercessão, mediando-as com o Pai.

Quando as dores vierem é disso que nos lembraremos. Cristo passou por elas e as venceu. Quando as emoções se descontrolarem dentro de nós, olharemos para Cristo como referência das emoções adequadas. Quando satanás vier, não teremos por que nada pode fazer conosco. Quando a morte bater à porta, ficaremos animados porque encontraremos o Cristo que nos proporcionou todo o alívio que acabamos de descrever. Cristo ter sido exaltado até o trono e com o nome sobre todo o nome não o torna distante, mas um Intercessor mais glorificado do que quando intercedia aqui da terra. Exaltação não é distanciamento! Falar de um mediador impessoal e apático é não compreender o papel de um Sumo Sacerdote. A exaltação de Cristo nos traz um alívio próximo.

Referências

  • CALVINO, João. Hebreus. Organização de Tiago José dos Santos Filho e Franklin Ferreira. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2012.
  • JONES, Mark. O conhecimento de Cristo. Brasília-DF: Monergismo, 2018.
  • KISTEMAKER, Simon. Hebreus. Organização de Cláudio Antônio Batista Marra. Tradução de Marcelo Tolentino e Paulo Arantes. 2. ed. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2013.
  • WARFIELD, Benjamin Breckinridge. The Emotional Life of Our Lord. Crossway, 2022.APA

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